quinta-feira, 30 de julho de 2015

A Torre



Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao 
final. Se insistirmos em permanecer nela mais 
do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o 
sentido das outras etapas que precisamos viver. 
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando 
capítulos – não importa o nome que damos, o que 
importa é deixar no passado os momentos da vida 
que já se acabaram.

Foi despedido do trabalho? Terminou uma relação?


Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro 
país?

A amizade tão longamente cultivada desapareceu 
sem explicações?

Você pode passar muito tempo se perguntando por 
que isso aconteceu. Pode dizer para si mesmo 
que não dará mais um passo enquanto não entender 
as razões que levaram certas coisas, que eram 
tão importantes e sólidas em sua vida, serem 
subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude 
será um desgaste imenso para todos: seus pais, seu 
marido ou sua esposa, seus amigos, seus filhos, sua 
irmã, todos estarão encerrando capítulos, virando a 
folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver 
que você está parado.

Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e 
no passado, nem mesmo quando tentamos 
entender as coisas que acontecem conosco. O que 
passou não voltará: não podemos ser 
eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos 
que se sentem culpados ou rancorosos com os 
pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação 
com quem já foi embora e não tem a menor 
intenção de voltar.

As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar 
que elas realmente possam ir embora. Por isso é 
tão importante (por mais doloroso que seja!) 
destruir recordações, mudar de casa, dar muitas 
coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que 
tem. Tudo neste mundo visível é uma manifestação 
do mundo invisível, do que está acontecendo em 
nosso coração – e o desfazer-se de certas 
lembranças significa também abrir espaço para que 
outras tom em o seu lugar.
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.


Ninguém está jogando nesta vida com cartas 
marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes 
perdemos. Não espere que devolvam algo, não 
espere que reconheçam seu esforço, que descubram 
seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar 
sua televisão emocional e assistir sempre ao 
mesmo programa, que mostra como você sofreucom 
determinada perda: isso o estará apenas 
envenenando, e nada mais.

Não há nada mais perigoso que rompimentos 
amorosos que não são aceitos, promessas de 
emprego que não têm data marcada para começar, 
decisões que sempre são adiadas em nome do
 “momento ideal”. Antes de começar um capítulo 
novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo 
que o que passou, jamais voltará.

Lembre-se de que houve uma época em que podia 
viver sem aquilo, sem aquela pessoa – nada é 
insubstituível, um hábito não é uma necessidade. 
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é 
muito importante. Encerrando ciclos. Não por causa 
do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas 
porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais 
na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a 
casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se 
transforme em quem é.

Gloria Hurtado
psicóloga e colunista colombiana

Imagem: A Torre - Knapp-Hall Tarot

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