sábado, 25 de junho de 2011

A Nau dos Loucos









No imaginário do renascimento a nau dos loucos transportava tipos sociais que embarcavam em uma grande viagem simbólica em busca de riquezas e dos presságios dos seus destinos e de suas verdades. Essas embarcações faziam parte da rotina dos loucos que eram expulsos das cidades e levados para territórios longínquos. Michel Foucault vê isso como uma inquietude em relação à loucura no fim da idade média e começo do renascimento. No século XV, a loucura começa a assombrar a imaginação do homem ocidental e a exercer atração e fascínio sobre ele.
No renascimento existem dois tipos de loucura: a experiência cósmica, composta pela nau dos loucos e uma experiência crítica relacionada a toda essa relação que o homem tem consigo mesmo. A loucura está fortemente relacionada com o próprio homem em relação aos seus sonhos, ilusões, fraquezas, representando o relacionamento que o homem mantem com ele mesmo sobre a sua própria condição no mundo.
A nau dos loucos, Narrenshiff, é uma obra literária ressuscitada dos temas místicos em 1413 em Borgonha por Blauwe Schute de Jacob Van Oestvoren. A nau dos loucos leva o homem a sua própria sorte e a ser prisioneiro de sua própria partida. Foucault detalha maravilhosamente essa passagem: “Mas a isso a água acrescenta a massa obscura de seus próprios valores: ela leva embora, mas faz mais do que isso, ela purifica. Além do mais a navegação entrega o homem a incerteza da sorte: nela cada um é confiado ao seu próprio destino. Todo embarque, possivelmente é o último. É para o outro mundo que parte o louco na sua barca louca; é de outro mundo que ele chega quando desembarca. Esta navegação do louco é simultaneamente a divisão rigorosa e a passagem absoluta..” Maravilhoso!
Continuando com Foucault: “A água e a navegação tem realmente esse papel. Fechado no navio, de onde ele não escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio do mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, prisioneiro da passagem. E a terra à qual aportará não e conhecida, assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra vem. Sua única verdade e sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não podem lhe pertencer. Uma coisa é certa, a água e a loucura estarão ligadas por muito tempo nos sonhos do homem europeu”.
No século XV, no mesmo período em que surge o tarô, o tema da nau dos loucos surge na literatura e na iconografia e começa a invadir as paisagens mais familiares. A figura do Louco, do simplório ou do bobo, assume cada vez mais importância. O Louco não é mais ridicularizado e toma o centro do teatro, como o detentor da verdade. O louco lembra a cada um a sua verdade e embarca em sua nau todos os homens. Ele reivindica para si mesmo estar mais próximo da felicidade e da razão.
O que é muito interessante é que o tema da morte no século XV é substituído pelo tema da loucura: o desatino da loucura substitui a morte e a seriedade que a acompanha. Como a morte reduzia o homem a nada, a contemplação de que a existência é um nada, alivia a dor da constatação do fim da existência.
Foucault escreve: “A substituição do tema da morte pela loucura não marca uma ruptura, mas sim, uma virada no interior da mesma inquietude”.
O Louco do Tarô traduz literalmente o que Foucault escreveu tão brilhantemente: O homem não sabe de onde veio e nem para onde vai. Estamos presos nessa travessia por uma estrada larga e acorrentados à infinita encruzilhada.

O tema do Louco continua num próximo post.
Bibliografia : A história da loucura na idade clássica – Michel Foucault

9 comentários:

Arierom (Blog de Tarô) disse...

Vera,

feito eremita, acompanho a jornada do louco.

Parabéns e um beijo.

Vera Chrystina disse...

Oi Ari, adorei as suas palavras.Foucault é apaixonante!

Um beijo!

Emanuel disse...

Oi Vera! Que delicia reler Foucault à luz do Tarot! Eu lembro de ter lido algo, também, em um livro do Ronaldo Vainfas, creio ser o Trópico dos Pecados - não me lembro! Mas adorei o texto!

Vera Chrystina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vera Chrystina disse...

Oi Emanuel,
Obrigada pelo carinho! Ando fascinada por Foucault!

Um beijo!

Edy De Lucca disse...

Nossa Vera! Que legal trazer Foucault para a mesa de Tarô! Valeu mesmo! Uma boa oportunidade de ir aprendendo mais sobre os dois...beijão

Vera Chrystina disse...

Oi Edy,
Obrigada pelo carinho da mensagem!
Um beijão!

Pietra disse...

O Foucault é um sujeito que olhou umas coisas muito loucas mesmo... umas coisas que tem horas que a gente meio que deixa de lado.

Quando mandamos embora, matamos ou encarceramos, não estamos, em intuíto dando o mesmo fim?

Tem horas que eu quero crer que sim... Tudo uma coisa meio Diabo...

Vera Chrystina disse...

Cara Pietra, é complicado mesmo entender a loucura e de como ela é tratada. Existem os loucos de Deus, mas também os Loucos do Diabo na visão do renascimento. São o verdadeiros imbecis, desmedidos, glutões, na realidade estúpidos e ignorantes da sua própria estupidez. Na verdade Focault analisa a loucura nesta época de uma maneira bem interessante em cimas das obras de Bosch, Erasmo, Brant e Dürer, e seu olhar refinado é bárbaro. Infelizmente existem psicopatas que precisam ser trancados mesmo. Não tem jeito. Lidar com a demência e a complexidade cerebral não é fácil. Uma certeza existe, os loucos sempre foram maltratados e marginalizados. Coisas do homem e deste planetinha complicado...