sábado, 7 de junho de 2008

De Quatro




De quatro Napoleão perdeu a guerra, após a Batalha de Waterloo, atingido de raspão por um tiro.

O número 4 representa plenitude, totalidade, abrangência universal, o concreto, aparente e matemático. Contrapõe-se ao 3, transcendental, espiritual, abstrato e divino. Platão resumiu a diferença entre os dois: " Se o ternário é o número das idéias, o quaternário é o número da realização das idéias".

No século V a.C Hipócrates, Pai da Medicina Científica, lançou a teoria dos quatro humores - sangue, bile negra, bile amarela e linfa. Desmistificando a crença de que maus espíritos eram causadores de todos os males, justificava os quatro tipos de temperamento - sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. Para ele, quatro eram os órgãos principais ( coração, baço, fígado e cérebro) e a função do médico era promover o equilíbrio entre eles. Dos quatro humores da Antiguidade, saltamos às quatro bases da Biologia Molecular. O DNA é formado por adenina, timina, guanina e citosina, cada base formada por sua vez, por quatro elementos químicos - carbono, oxigênio, hidrogênio e nitrogênio. Se na Antiguidade a palavra-chave era humores, nos próximos anos a palavra de ordem em medicina deve ser Ética. Clonagem, eutanásia, células tronco são assuntos tão controversos que a Ética deverá ser o divisor de águas da profissão. Para emitir juízos éticos, utilizamos os quatro quadrante
s cerebrais: percepção, reflexão, conclusão e ação. Afinal, como já dizia Hipócrates "A vida é breve, a ocasião instantânea, a experiência incerta e o juízo difícil".

Na natureza, são quatro os elementos - fogo, terra, água e ar -, os grandes oceanos - Atlântico, Pacífico, Índico e Ártico - e as qualidades táteis - frio, seco, quente, úmido. Os pontos cardeais nos orientam a localização e os pontos da pirâmide (contando com o centro) nos energizam. Assim, bradamos nossas verdades aos quatro ventos, pelos quatro cantos da Terra.

Quatro indica base, sustentação, estabilidade, equilíbrio e segurança. São quatro as pernas da cadeira, os pilares de sustentação, os membros do corpo humano e as patas nos animais. Para sentir segurança, nada melhor que carros de quatro portas, com tração nas quatro rodas.

13 é número da sorte, cuja soma dos algarismos 1 e 3 é quatro. Sorte também tem quem encontra um trevo de quatro folhas. O Cruzeiro do Sul tem quatro estrelas e nos leva ao Céu. São quatro as operações matemáticas básicas ( soma, subtração, divisão e multiplicação), e as dimensões ( largura, comprimento, altura e tempo). O quadrado tem quatro lados, quatro vértices, quatro arestas. Quatro são as ciências fundamentais - aritmética, música, astronomia e geometria - e, na Mecânica Quântica, também as partículas de força - Gravidade, Eletromagnetismo, Nuclear Fraca ( radioatividade) e Nuclear Forte.

Dizem que quatro coisas nunca voltam: a pedra atirada, a palavra dita, a ocasião perdida e o tempo passado. Dos quatro gigantes da alma, três são obstáculos - Medo, Ira e Dever -, neutralizados pelo Amor. No Antigo Testamento, Deus fala dos quatro juízos sobre Israel. O Budismo é baseado em quatro nobres verdades: a Vida é sofrimento; o sofrimento vem do apego; o apego pode ser superado; há um caminho para isso. Quatro são os discursos de Aristóteles - poética, retórica, dialética e lógica. Para os fãs de Harry Porter, as casas de Hogwarts são Corvinal, Grifinóia, Sansorina e Lufa-Lufa.

Quatro estações do ano: inverno, tempo de recuperação e hibernação, primavera, tempo de brotos, verão, auge do sol e outono, início do deflorescer. O mesmo padrão cíclico se repete nas fases da lua e nas fases da vida: infância, adolescência, maturidade e velhice. A licença-maternidade dura quatro meses na legislação brasileira e é por volta da quarta década de vida que homens e mulheres refletem sobre o passado e redefinem a rota para o futuro. Quem nunca ouviu falar da Idade do Lobo, quando homens dormem com vovozinhas e sonham com Chapeuzinho Vermelho? Eleições presidenciais, Copas do Mundo e anos bissextos ocorrem a cada quatro anos.

Há algum tempo perdi a confiança em presidentes que nada vêem, nada sabem e que têm somente quatro dedos em uma das mãos.

Para Henry Mencken, a principal diferença entre o homem e a mulher é que " Um homem perde o senso de orientação após quatro drinques e uma mulher, após quatro beijos". Há controvérsias: já não se fazem mais mulheres como antigamente e o fígado anda muito resistente aos destilados...

MARIA PAULA A. MACHADO

Os pré-socráticos e seus elementos favoritos



O primeiro filósofo, Tales de Mileto, procurou na água a origem de tudo o que existe. Outros filósofos jônicos deram respostas semelhantes, mas privilegiando outros elementos: Anaximandro de Mileto, discípulo de Tales, substituiu a água pelo ápeiron (que pode ser traduzido como ilimitado, indefinido). Anaxímenes de Mileto, discípulo de Anaximandro, optou pelo ar. Heráclito de Éfeso, que viveu depois destes (cerca de 500 a.C.), preferiu o fogo.



Hoje, essas escolhas podem parecer arbitrárias e mesmo ridículas, à primeira vista. Por que a água em vez do fogo, ou vice-versa? Trata-se, na verdade, de uma discussão sobre as propriedades e natureza do universo. Todos concordavam que todas as transformações e movimentos que constituem a natureza (physis) e a própria existência poderiam ser deduzidas das propriedades de uma substância única que forma todo o cosmos. Porém, não havia uma palavra para tal substância tão "neutra" quanto a atual matéria.

Numa forma não tão diferente, essa discussão ainda continua entre os filósofos que dizem que o principal fundamento do universo é a matéria (materialistas) e os que dizem que é a idéia (idealistas), Deus (panteístas), o Eu (empiristas), que há um único fundamento (monistas), dois (dualistas), muitos ou infinitos (pluralistas).

Para Tales (nascido na árida Fenícia), a propriedade fundamental do cosmos devia ser a vida, e o fundamento desta é a água: o sêmen é líqüido e todo alimento é suculento, ao passo que as coisas mortas secam. A água pode mudar de forma, dando origens ao sólido (gelo), ao gasoso (vapor) e ao próprio fogo na forma de calor biológico - assim, suas propriedades poderiam explicar toda a natureza. O primeiro filósofo era, portanto, radicalmente materialista.

Já Anaximandro tinha um conceito mais intelectual e abstrato da substância primordial: ela não poderia ter as propriedades determinadas desta ou daquela matéria particular, mas deveria conter todas as possibilidades em estado de indeterminação, dos quais todos os seres surgiriam pela separação dos contrários. Era algo próximo ao que hoje chamaríamos simplesmente de "matéria", porém dinâmica e potencialmente viva, mais como a matéria dos físicos modernos do que como a matéria inerte e passiva da física idealista clássica.

Anaxímenes voltou à idéia da vida como princípio do cosmos, mas teve dela uma imagem mais "espiritual": não a água, que lembra as funções biológicas "inferiores", mas o ar, identificado com a alma, "que nos mantêm unidos". Espírito, alma, alento, ânimo, psique, são todas palavras que derivam, em última instância, de termos que significaram originalmente respiração, vento, sopro. Quando alguém morre, dizemos que "expirou", deu o "último suspiro" e quando alguém se sente particularmente vivo, teve uma "inspiração", está "animado". Assim, o fundamento da natureza não seria algo tão grosseiro quanto os líquidos e mucos do corpo. Embora ainda fosse material e corporal, era também alma e pensamento: estava dado o primeiro passo no caminho do idealismo.

Heráclito, o Obscuro, geralmente considerado o maior dos pré-socráticos, teve uma imagem da natureza que poderíamos chamar mais "pessimista", ou, talvez, mais realista. Para ele, o fundamento de tudo não era a vida como ser vivo, o viver relativamente tranqüilo e estável sugerido pela água ou pelo ar, mas o processo de nascer, lutar, amar e morrer. Tranqüilidade e estabilidade são próprios dos mortos. Tudo flui, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, tudo é gerado por uma luta de contrários. O fogo (hoje diríamos melhor "energia"), permanentemente em movimento, foi a melhor imagem dessa inquietação e luta cósmicas que Heráclito pôde encontrar na natureza. Não tanto pela escolha do elemento, mas sim pela substituição do ser pelo processo (dialético, quer dizer, de luta-antítese e amor-síntese de contrários) que esse elemento simboliza, seu pensamento foi o mais inovador desde Tales.


O nascimento do idealismo

Porém, no mesmo ano em que Heráclito nascia, Pitágoras estava abandonando a cidade de Samos na Jônia (onde fracassou em impor suas idéias) e fundando em Crótona, na Magna Grécia (ocidente do mundo grego, no atual Sul da Itália ) uma escola de pensamento muito diferente: não materialista e monista, como as jônicas, mas idealista e dualista: o fundamento da natureza era, para ele, não uma substância física, mas o número, as relações matemáticas (diríamos, hoje, as "leis" da natureza), que existiriam independentemente da natureza propriamente dita, num mundo das idéias.

A matéria existiria, mas como algo inerte e sem propriedades, só adquirindo qualidades através daimposição de relações numéricas pelo espírito. A imagem paradigmática do cosmos de Pitágoras não era o ser vivo ou o processo biológico, mas a música, onde a matéria inerte (o ar), qualidades oriundas de uma idéia abstrata (a partitura) e expressas em relações numéricas (as notas musicais, definidas por uma certa freqüência de vibração). É de Pitágoras a expressão "música das esferas", referida à ordem do cosmos.

Também se deve a Pitágoras e seus seguidores a invenção da matemática como uma ciência dedutiva rigorosa (até então ela era basicamente uma coleção de receitas práticas para cálculos), importantíssimos teoremas da geometria, e a aplicação da matemática à musica e à astronomia (explicando os movimentos dos planetas, eclipses etc.).

Também se devem a ele idéias bem mais discutíveis, como a numerologia, a tese da reencarnação (como vertente filosófica, pelo menos), e a primeira legitimação filosófica das oposições mente/corpo, espírito/matéria, razão/instinto e, por extensão, também homem/mulher (esta sempre mais identificada à natureza, logo à matéria), senhor/escravo, sagrado/profano, esoterismo/exoterismo, governante/súdito, depois desenvolvidas por Platão.

Não por acaso, Pitágoras foi o primeiro déspota esclarecido a tentar criar uma sociedade utópica a partir de idéias abstratas: criou uma comunidade filosófico-religiosa com seus discípulos, os quais procuravam viver de forma ideal (em todos os sentidos da palavra) e guardavam seus ensinamentos em rigoroso segredo. Tudo correu bem até que os pitagóricos tentaram tomar o poder em Crótona e impor suas idéias: os crotonenses não quiseram dançar sua música e Pitágoras acabou morrendo no exílio.

Pitágoras não deixou escritos (pelo próprio caráter esotérico de seus ensinamentos), mas pelo que restou dos textos de seu seguidor Filolau (que vendeu na forma de livro os ensinamentos secretos em cerca de 400 a.C., pois estava na pobreza) podemos supor que ele formulou, pela primeira vez, a hipótese da pluralidade dos elementos materiais, que seriam cinco: os quatro elementos da "esfera": fogo, água, terra, ar e o holkas da esfera. O homem se dividia em quatro princípios: cérebro (inteligência), coração (alma e sensação), umbigo (gestação) e órgãos genitais (emissão do sêmen e criação), possivelmente associados aos quatro elementos. O cérebro indica o homem; o coração, o animal; o umbigo, a planta e os órgãos genitais, todos eles, pois "tudo floresce e cresce de um sêmen".

Representantes ainda mais radicais (e monistas) do idealismo da filosofia grega na Itália foram Parmênides e Zenão, da cidade de Eléia (por isso, sua escola foi chamada eleata). Eles negaram a realidade do tempo e do movimento, reduziram a natureza, a matéria e as oposições a meras ilusões. Tudo que realmente existia era o Um, ser ideal, eterno, perfeito e imutável (idéia que, curiosamente, lembra um pouco as do físico Stephen Hawking). Zenão, como Pitágoras, foi um revolucionário fracassado, e acabou torturado e executado pelo tirano de Eléia.



E a síntese na teoria original dos quatro elementos

Mais interessante para a história dos elementos, entretanto, foi Empédocles de Agrigento (cidade grega da Sicília - 490 a 435 a.C.). Apesar de ser originalmente um pitagórico (foi acusado por estes de trair os segredos da escola), criou e divulgou uma filosofia que pode ser considerada mais uma síntese do pensamento jônico com o sul-italiano e a primeira forma de pluralismo (e, apesar disso, uma forma de holismo) do que uma mera vulgarização do pitagorismo.

Para ele a natureza era a síntese de quatro elementos ou deuses: água (Néstis), ar (Hera), fogo (Zeus) e terra (Hades). Sua imagem da natureza não estava numa unidade de essência, biológica ou espiritual: era a própria pluralidade dos elementos que constituíam a natureza - o todo - relacionando-se por duas forças que também eram deusas: amizade (philia - igual a Afrodite, deusa do amor) e o ódio (neikos - Éris, a deusa da discórdia). A amizade exogâmica e mestiça, tende a unir os contrários, enquanto o ódio, endogâmico e racista (no limite, incestuoso), tende a separá-los e unir os semelhantes. Apesar da unidade da natureza ser, por assim dizer, fortuita, é bastante real: Empédocles era vegetariano por considerar que comer carne era comer a si mesmo, pois o ser é um.

Essa filosofia tem em si um pouco de cada uma das precedentes (especialmente a Heráclito, pela luta/amor entre os elementos), como é fácil perceber, mas além disso deve também à mitologia. Ele expressava sua filosofia em versos, como os antigos poetas da mitologia (e também como Parmênides) e ao contrário dos filósofos jônicos materialistas. Igualava os elementos a deuses e incluía entre eles a terra, reparando a injustiça cometida pelos jônicos. Desprezada pelos filósofos jônicos como demasiado grosseira, era, na mitologia grega de Hesíodo, a origem de toda a natureza, na forma da deusa Gaia.

Se o amor prevalecesse totalmente, o universo se tornaria um Todo indiferenciado como o Um dos eleatas; se o ódio fosse vitorioso, ele se decomporia em partes inconciliáveis em luta eterna, como o Fogo de Heráclito. O equilíbrio entre as duas grandes forças é que mantém o mundo como ele é. Esta concepção tem analogias na moderna teoria do caos: segundo esta, a vida precisa se manter no ponto de equilíbrio entre a ordem e o caos. A ordem total levaria à rigidez total e cristalina da máquina - o resultado final do amor de Empédocles; o caos total resultaria na massa informe de um gás, onde as moléculas se chocam desordenadamente - o ódio de Empédocles. Poderíamos também comparar estas forças com os conceitos freudianos de eros e thanatos.

A concepção de quatro elementos seria reapropriada pelo idealismo no Timeu de Platão, segundo o qual a matéria só ganha algum grau de ser ao lhe ser imposta uma forma (idéia). E como há apenas cinco sólidos perfeitos (isto é, figuras geométricas tridimensionais com todas as faces iguais), poderia haver, no máximo, cinco elementos: ao tetraedro (4 faces), forma mais simples e "pura", corresponde o fogo; ao octaedro (8 faces), o ar; ao icosaedro (20 faces), a água; ao cubo (6 faces), o mais difícil de mover, a terra. Sobrou o dodecaedro (12 faces), associado ao "Todo".

Segundo Platão, como o tetraedro, o octaedro e o icosaedro têm todos faces triangulares, as partículas de fogo podem transformar-se em água e ar e vice-versa por recombinação de faces (mas a terra, de faces quadradas, e o quinto elemento, de faces pentagonais, teriam que ser imunes a transformações em outros elementos). Os números dos elementos são 1 (fogo), 2 (ar), 3 (água) e 4 (terra).

Se, para Empédocles eles pareciam iguais em valor, para Platão e sucessores pareceram formar uma escada que vai do instinto grosseiro ao espírito puro. Aristóteles voltou a uma concepção mais "horizontal" dos primeiros quatro elementos, mas acrescentou a eles um quinto mais elevado: o éter, constituinte dos corpos celestes, substituiu o "Todo" do Timeu - mas geralmente ignorado por ser irrelevante para médicos e alquimistas, a não ser como símbolo do espírito. Foi essa a concepção que predominou no Ocidente até Paracelso.



Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.

Na origem, os elementos


Nos manuais e cursos de Química, é comum introduzir o estudo dos elementos com a história da concepção antiga e medieval dos quatro elementos, a qual a concepção introduzida na Idade Moderna por Antoine Lavoisier teria substituído e sucedido, sendo depois aperfeiçoada e expandida por John Dalton e, principalmente, Dimitri Mendeleev, o criador da Tabela Periódica.

Mas é uma visão demasiado anacrônica, demasiado enviesada pelo olhar moderno que faz da teoria antiga dos elementos uma precursora da química moderna. Para os antigos, ela era mais do que isso: era uma forma de classificar, hierarquizar e organizar toda a realidade, física, biológica, psicológica e espiritual.

Nas concepções antigas, o número de elementos é pequeno e fechado - não se cogita descobrir "novos". Freqüentemente quatro ou cinco. Por quê? Por ser uma maneira natural de organizar o espaço, comum à maioria dos povos - leste, oeste, norte, sul (e, às vezes, o centro ou o alto) - que sugere, por analogia, uma maneira paralela de organizar a compreensão da realidade.

O norte é associado a frio e o sul a calor porque, do ponto de vista do Hemisfério Norte, o sol do meio-dia está ao sul e o sol nunca está ao norte (no nosso hemisfério, naturalmente, é o contrário). Daí é natural associar o sul a fogo e o norte a seu oposto, usualmente a água.

O leste é onde o sol nasce e por isso está relacionado a nascimento, juventude e vida, enquanto o oeste está relacionado a ocaso, decadência e morte.

Para um povo que enterra seus mortos, é natural relacionar o oeste à terra e leste ao ar, símbolo de "espírito", respiração e vida.

Os chineses seguiram uma lógica só ligeiramente diferente: o leste é associado ao vento ou à madeira - vegetação em crescimento, outro símbolo de vida - e oeste ao metal sem vida, das armas que podem matar.

O centro é o ponto de referência e equilíbrio, que pode ou não ser tomado como um elemento e ponto cardeal. No caso dos chineses, é a terra, que para esse povo não se associa à morte e sim ao cultivo e à vida civilizada. No dos gregos é o éter, o ponto de vista dos deuses imortais alheios à mudança.

Outra maneira tradicional de pensar os elementos é de acordo com um eixo vertical - alto, médio e baixo, pensado em relação ao corpo humano. Geralmente, o alto é associado a razão ou espírito (cabeça), o médio a movimento ou energia (coração/pulmões) e o baixo a inércia e matéria (barriga/intestinos).

Uma versão desse esquema é indiana, as chamadas gunas do ayurveda, medicina tradicional hinduísta: sattva (branco, inteligência, virtude, bondade), rajas (vermelho, energia, turbulência) e tamas (negro, inércia, inconsciência).

A partir de 1520, Paracelso (seguido pelos alquimistas do início da Idade Moderna) concebeu uma tripartição muito semelhante: enxofre (princípio inflamável, alma), mercúrio (espírito), e sal (corpo, matéria). Foi a que prevaleceu imediatamente antes de se impor a concepção moderna de Lavoisier.

Se eliminarmos o estrato médio e ficarmos só com o alto-baixo temos o par Yang-Yin da cosmologia chinesa (Céu-Terra), no qual o homem também tem o papel de ponto médio.

É interessante ver como todos esses esquemas serviram ou servem como princípio de organização da medicina e da dietética. Os gregos e médicos hipocráticos medievais classificavam os alimentos de acordo com sua proporção dos quatro elementos que supostamente continham. Assim como os chineses em geral favoreciam um alto conteúdo de "yang" e os indianos de "sattva", os hipocráticos julgavam mais saudável, na maioria dos casos, o "fogo" - razão pela qual as especiarias picantes foram tão demandadas.

No início da Idade Moderna, a concepção de dieta ideal passou a ser pensada pelo esquema de Paracelso, favorecendo, por exemplo, o consumo de destilados ou "espíritos" assimilados ao princípio do "mercúrio" e de molhos à base de gorduras, assimiladas ao "enxofre", necessário para unir a matéria. Os iogues e seguidores do ayurveda aplicam os gunas para a mesma finalidade. A macrobiótica e a acupuntura seguem o esquema chinês.

A poesia dos elementos

Os mais antigos mitos gregos recorrem a uma concepção similar. Começam com a atividade de três elementos: Caos (o abismo de trevas cósmico, que se divide em celeste - Noite e subterrâneo - Érebo), a Terra e o Tártaro nevoento, habitação sombria das sombras dos mortos. Eles ou elas geram sozinhos seres poderosos e gigantescos, até que intervém o quarto elemento, Amor (Eros), que impõe uma nova forma de reprodução, dando origem a seres mais belos, proporcionados e "humanos", dos quais os primeiros são os Titãs, artífices da primeira humanidade (a da Idade de Ouro). Um deles, Cronos, castrou o pai e tomou o poder, até ser deposto pelo seu filho Zeus. Os genitais castrados do Céu originaram Afrodite, deusa do Amor, ao passo que a Noite gerou sozinha (além de muitos outros seres punitivos e terríveis) Éris, deusa da discórdia e as Moiras, deusas do destino.

Em termos modernos, poderíamos traduzir isto assim: os princípios fundamentais são o espaço vazio (Caos), a vida (Gaia), a morte (Tártaro) e a beleza (Eros), entendida como ordem e proporção (Cosmos). Os três primeiros são capazes de gerar por si, mas apenas quando a beleza do parceiro doma seus espíritos e vontade é que passam a gerar, através do coito, seres realmente belos, porque originados dessa beleza e não da vontade bruta. Só com esses seres surge verdadeiramente o amor, a luta, a evolução e o Cosmos que conhecemos.

Ao se iniciarem no pensamento racional, os gregos ainda mantinham esquemas de pensamento similares. Segundo Jean-Pierre Vernant (Mito e Pensamento entre os Gregos), "o pensamento racional tem um registro civil: conhece-se a sua data e o seu lugar de nascimento". A criança nasceu em Mileto (cidade da Jônia, extremo oriental do mundo grego) por volta de 585 a.C., e suas primeiras palavras foram: "tudo é água".

É verdade que a estrutura de pensamento que serve de modelo às primeiras investigações filosóficas não era inteiramente nova. Segundo F.M. Cornford (Principium Sapientiae: the origins of greek phiosophical thought), o mesmo esquema se encontra na mitologia grega e na filosofia jônica:

1. no começo há um estado de indistinção onde nada aparece;

2. desta unidade primordial emergem, por segregação, pares de opostos, quente e frio, seco e úmido, que vão diferenciar no espaço quatro províncias: o céu de fogo, o ar frio, a terra seca, o mar úmido;

3. os opostos unem-se e interferem, cada um triunfando por sua vez sobre os outros, segundo um ciclo indefinidamente renovado, nos fenômenos meteorológicos, na sucessão das estações, no nascimento e na morte de tudo o que vive, plantas, animais e homens.

A novidade não estaria na estrutura da resposta, que já se encontrava nos mitos contados por Hesíodo na Teogonia (e antes, ainda, em mitos egípcios e mesopotâmicos) e sim em procurar explicar a dinâmica da natureza não através de deuses com personalidades complexas, arbitrárias e misteriosas, mas sim através de conceitos com propriedades tão simples quanto possíveis: conceitos elementares. Em vez de explicar o que já é complexo e misterioso através de algo mais misterioso ainda, acessível apenas aos privilegiados que tiveram acesso à revelação divina (de Javé ou das Musas), procurou-se explicar o misterioso em termos que, em princípio, qualquer mortal poderia compreender, discutir e criticar racionalmente.



Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Entre o Ego e a Alma








Entre o Ego e a Alma



Enquanto pensamos que a morte é o que mais separa as pessoas, o EGO, desde sempre, vem fazendo esse "serviço" muito mais do que ela.
Não há nada que vença o EGO em termos de separações.

E como é que ele age?

- No casamento e nas relações amorosas:
em nome da "incompatibilidade de gênios", homens e mulheres se separam, sem darem chance à flexibilidade que faria com que ambos - de comum acordo - cedessem um pouco.
Não! Para o EGO não tem acordo quando se trata de ceder.
Seria "rebaixar-se"! Ele só entende assim.

- Nas amizades:
uma atitude ou palavra mal colocadas são, muitas vezes, suficientes para que amigos se separem, deixando cair no esquecimento as tantas coisas boas que fizeram brotar uma tão valiosa amizade.
Não! O EGO não admite erros nem pedidos de perdão.
Seria abrir mão da punição! Ele só entende assim.

- Nas famílias:
tantos pais, irmãos e filhos se separam, só pela necessidade de impor suas vontades, de ver "quem manda aqui", quem ganha a condição de dono da última palavra.
Na maioria dos casos, numa reunião familiar, e com um pouco de humildade todos saberiam até onde ir e quando parar.
Não! O EGO quer deter o poder sobre tudo e sobre todos.
Limites seriam um caso de obediência! Ele só entende assim.

- Nas carreiras:
pessoas escolhem seguir a mesma carreira ou carreiras diferentes, e muitas dessas pessoas gastam a melhor parte da sua vida competindo, vigiando, farejando os passos das outras, dada a precisão de ser "a melhor".
A consciência de que "o sol nasceu para todos" faria isso parar.
Não! O EGO quer ganhar sempre, custe o que custar.
Aceitar vitórias alheias seria fracassar! Ele só entende assim.

Em toda situação conflitiva que determina separações o EGO se faz presente e sempre quer ganhar.

É nos carros, em brincadeiras desnecessárias;
é no trabalho, em críticas contra colegas;
é nas escolas, em exibições de notas;
é nas guerras, onde ganhar é questão de vida ou morte;
é na vizinhança, em encrencas vulgares, e assim por diante... infinitamente...

Pense em algo similar, não citado aqui, e você notará que nele também está a ditadura do EGO.
Basta que o caso lembrado seja capaz de separar pessoas.

Não! - Não é a morte o que mais promove essas apartações.
É o EGO, o filho predilecto do orgulho!

Sua ALMA e seu EGO ocupam o mesmo "castelo".
Deixe que sua ALMA seja a rainha vitalícia do lugar!
Ela é aquela parte sua que deseja Paz e Reconciliações.

O EGO é o mal dentro de você.
Dê-lhe um "cala-boca" bem dado.

Assim - e só assim - a Vida lhe abrirá as portas da verdadeira e perene Felicidade.

S í l v i a S c h m i d t

O Eremita


É de máxima necessidade para que se possa aprender o domínio da nossa mente, manter períodos de retiro espiritual, retirar-se das habituais atividades pessoais para a solidão. Esses retiros podem durar apenas um dia ou até um final de semana. Também pode estender-se por um período de tempo maior. Não se pode predeterminar ou prescrever o período, mas se você estiver progredindo, com certeza irá sentir, uma ou outra vez, um premente impulso interno para fugir dos estorvos de constante absorção da vida diária. Com certeza você já ouviu alguém dizer - ou quem sabe até você mesmo - "Eu daria tudo para poder ficar pelo menos um mês afastado de tudo". Isso é uma espécie de pressão, de um impulso interno; um desejo espiritual por desenvolver-se. Sempre que possível, devemos aproveitar uma oportunidade que se apresente, ou melhor ainda, nos esforçar por criá-la, ainda que apenas por algumas horas.

Os homens se tornaram tão empenhados na vivência material, na luta por ganhar a vida, e no estonteante ambiente das grandes cidades em que são forçados a morar, que durante o último meio século se tornaram cada vez mais obsedados por seus corpos materiais. O trabalho, as condições de vida em geral, e os prazeres se tornaram tão definitivamente materiais que o relaxamento, num sentido espiritual, se tornou uma pronunciada exceção. Mas na Ásia e algumas partes da África você encontrará o inverso. As pessoas tomam por obrigação dispor de tempo para relaxar por motivos religiosos e espirituais. Eu falo das massas. Elas compreendem que não devem apenas ganhar a vida, mas também devem manter a vida! Não é uma questão de você ficar atarantado pela condição da sua alma, mas de obter uma visão mais clara do que realmente você é. Você não precisa entrar para um mosteiro - o mundo de hoje é o seu mosteiro, e as lutas da vida diária constituem a disciplina monástica; não é o que você faz, mas como o faz; não é sentar-se num lugar sossegado o que realmente importa, mas sentar-se no centro de seu próprio ser. O sábio pode fazer da vida do mundo o seu próprio lugar sossegado e das atividades no mundo os seu meio de libertação.

É nas ocasiões de retiro que você pode realmente relaxar e dirigir sua mente para canais espirituais. Se você mora numa cidade barulhenta, procure sempre que possível escapar para a quieta solidão da Natureza. Submeta-se às impressões que lhes vêm do novo ambiente. Se você procura orientação para um problema particular, com certeza, você o encontrará mais facilmente.

Mesmo que você seja apenas um humilde servidor, impossibilitado de escapar mais que uma ou duas semanas durante o ano e mais do que algumas horas por semana, você pode, no entanto, colher fartamente do emprego certo até de curtos períodos de retiro. Não é tanto uma questão da extensão de tempo que você tenha à sua disposição. É necessário fazer uso destes retiros, acima de tudo, para completo esquecimento dos seus afazeres pessoais. Desta maneira você prepara uma atmosfera adequada para que a alma impessoal da Natureza conceda certo grau de iluminação.

O passo seguinte, durante o período do seu retiro, é buscar o mais possível pela solidão. Evite locais com pessoas em demasia. Cada pessoa que você encontra se torna uma fonte de distração e diversão do seu objetivo, a não ser que se trate de alguém de superior estatura espiritual. Cada indivíduo está circundado de uma atmosfera que ele carrega para onde vai; mesmo que invisível, essa atmosfera não deixa de ser tão real que sob certas condições poderá ser registrada por instrumentos científicos. Definitiva, mas temporariamente, esta atmosfera pessoal influencia outros, pelo menos alguns, que entrarem em contato com ela. Uma vez que a maioria das pessoas do mundo é inclinada para objetivos outros que não os mais elevados que a Natureza (Deus) lhes estabeleceu, você deve tomar cuidado para não se deixar dominar por essas personalidades. Uma mistura demasiado freqüente com elas, seja nas multidões ou vida social, pode conduzir à subordinação dos seus objetivos espirituais aos seus propósitos materialistas.

Se você puder ser tão afortunado durante um retiro para encontrar a companhia de alguém dotado de uma vida espiritual mais poderosa que a sua, então o retiro lhe será muito mais proveitoso do que o comum.

Paul Brunton

A LUCIDEZ PERIGOSA



A Lucidez Perigosa
Clarice Lispector

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade
- essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.