sábado, 7 de junho de 2008

Os pré-socráticos e seus elementos favoritos



O primeiro filósofo, Tales de Mileto, procurou na água a origem de tudo o que existe. Outros filósofos jônicos deram respostas semelhantes, mas privilegiando outros elementos: Anaximandro de Mileto, discípulo de Tales, substituiu a água pelo ápeiron (que pode ser traduzido como ilimitado, indefinido). Anaxímenes de Mileto, discípulo de Anaximandro, optou pelo ar. Heráclito de Éfeso, que viveu depois destes (cerca de 500 a.C.), preferiu o fogo.



Hoje, essas escolhas podem parecer arbitrárias e mesmo ridículas, à primeira vista. Por que a água em vez do fogo, ou vice-versa? Trata-se, na verdade, de uma discussão sobre as propriedades e natureza do universo. Todos concordavam que todas as transformações e movimentos que constituem a natureza (physis) e a própria existência poderiam ser deduzidas das propriedades de uma substância única que forma todo o cosmos. Porém, não havia uma palavra para tal substância tão "neutra" quanto a atual matéria.

Numa forma não tão diferente, essa discussão ainda continua entre os filósofos que dizem que o principal fundamento do universo é a matéria (materialistas) e os que dizem que é a idéia (idealistas), Deus (panteístas), o Eu (empiristas), que há um único fundamento (monistas), dois (dualistas), muitos ou infinitos (pluralistas).

Para Tales (nascido na árida Fenícia), a propriedade fundamental do cosmos devia ser a vida, e o fundamento desta é a água: o sêmen é líqüido e todo alimento é suculento, ao passo que as coisas mortas secam. A água pode mudar de forma, dando origens ao sólido (gelo), ao gasoso (vapor) e ao próprio fogo na forma de calor biológico - assim, suas propriedades poderiam explicar toda a natureza. O primeiro filósofo era, portanto, radicalmente materialista.

Já Anaximandro tinha um conceito mais intelectual e abstrato da substância primordial: ela não poderia ter as propriedades determinadas desta ou daquela matéria particular, mas deveria conter todas as possibilidades em estado de indeterminação, dos quais todos os seres surgiriam pela separação dos contrários. Era algo próximo ao que hoje chamaríamos simplesmente de "matéria", porém dinâmica e potencialmente viva, mais como a matéria dos físicos modernos do que como a matéria inerte e passiva da física idealista clássica.

Anaxímenes voltou à idéia da vida como princípio do cosmos, mas teve dela uma imagem mais "espiritual": não a água, que lembra as funções biológicas "inferiores", mas o ar, identificado com a alma, "que nos mantêm unidos". Espírito, alma, alento, ânimo, psique, são todas palavras que derivam, em última instância, de termos que significaram originalmente respiração, vento, sopro. Quando alguém morre, dizemos que "expirou", deu o "último suspiro" e quando alguém se sente particularmente vivo, teve uma "inspiração", está "animado". Assim, o fundamento da natureza não seria algo tão grosseiro quanto os líquidos e mucos do corpo. Embora ainda fosse material e corporal, era também alma e pensamento: estava dado o primeiro passo no caminho do idealismo.

Heráclito, o Obscuro, geralmente considerado o maior dos pré-socráticos, teve uma imagem da natureza que poderíamos chamar mais "pessimista", ou, talvez, mais realista. Para ele, o fundamento de tudo não era a vida como ser vivo, o viver relativamente tranqüilo e estável sugerido pela água ou pelo ar, mas o processo de nascer, lutar, amar e morrer. Tranqüilidade e estabilidade são próprios dos mortos. Tudo flui, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, tudo é gerado por uma luta de contrários. O fogo (hoje diríamos melhor "energia"), permanentemente em movimento, foi a melhor imagem dessa inquietação e luta cósmicas que Heráclito pôde encontrar na natureza. Não tanto pela escolha do elemento, mas sim pela substituição do ser pelo processo (dialético, quer dizer, de luta-antítese e amor-síntese de contrários) que esse elemento simboliza, seu pensamento foi o mais inovador desde Tales.


O nascimento do idealismo

Porém, no mesmo ano em que Heráclito nascia, Pitágoras estava abandonando a cidade de Samos na Jônia (onde fracassou em impor suas idéias) e fundando em Crótona, na Magna Grécia (ocidente do mundo grego, no atual Sul da Itália ) uma escola de pensamento muito diferente: não materialista e monista, como as jônicas, mas idealista e dualista: o fundamento da natureza era, para ele, não uma substância física, mas o número, as relações matemáticas (diríamos, hoje, as "leis" da natureza), que existiriam independentemente da natureza propriamente dita, num mundo das idéias.

A matéria existiria, mas como algo inerte e sem propriedades, só adquirindo qualidades através daimposição de relações numéricas pelo espírito. A imagem paradigmática do cosmos de Pitágoras não era o ser vivo ou o processo biológico, mas a música, onde a matéria inerte (o ar), qualidades oriundas de uma idéia abstrata (a partitura) e expressas em relações numéricas (as notas musicais, definidas por uma certa freqüência de vibração). É de Pitágoras a expressão "música das esferas", referida à ordem do cosmos.

Também se deve a Pitágoras e seus seguidores a invenção da matemática como uma ciência dedutiva rigorosa (até então ela era basicamente uma coleção de receitas práticas para cálculos), importantíssimos teoremas da geometria, e a aplicação da matemática à musica e à astronomia (explicando os movimentos dos planetas, eclipses etc.).

Também se devem a ele idéias bem mais discutíveis, como a numerologia, a tese da reencarnação (como vertente filosófica, pelo menos), e a primeira legitimação filosófica das oposições mente/corpo, espírito/matéria, razão/instinto e, por extensão, também homem/mulher (esta sempre mais identificada à natureza, logo à matéria), senhor/escravo, sagrado/profano, esoterismo/exoterismo, governante/súdito, depois desenvolvidas por Platão.

Não por acaso, Pitágoras foi o primeiro déspota esclarecido a tentar criar uma sociedade utópica a partir de idéias abstratas: criou uma comunidade filosófico-religiosa com seus discípulos, os quais procuravam viver de forma ideal (em todos os sentidos da palavra) e guardavam seus ensinamentos em rigoroso segredo. Tudo correu bem até que os pitagóricos tentaram tomar o poder em Crótona e impor suas idéias: os crotonenses não quiseram dançar sua música e Pitágoras acabou morrendo no exílio.

Pitágoras não deixou escritos (pelo próprio caráter esotérico de seus ensinamentos), mas pelo que restou dos textos de seu seguidor Filolau (que vendeu na forma de livro os ensinamentos secretos em cerca de 400 a.C., pois estava na pobreza) podemos supor que ele formulou, pela primeira vez, a hipótese da pluralidade dos elementos materiais, que seriam cinco: os quatro elementos da "esfera": fogo, água, terra, ar e o holkas da esfera. O homem se dividia em quatro princípios: cérebro (inteligência), coração (alma e sensação), umbigo (gestação) e órgãos genitais (emissão do sêmen e criação), possivelmente associados aos quatro elementos. O cérebro indica o homem; o coração, o animal; o umbigo, a planta e os órgãos genitais, todos eles, pois "tudo floresce e cresce de um sêmen".

Representantes ainda mais radicais (e monistas) do idealismo da filosofia grega na Itália foram Parmênides e Zenão, da cidade de Eléia (por isso, sua escola foi chamada eleata). Eles negaram a realidade do tempo e do movimento, reduziram a natureza, a matéria e as oposições a meras ilusões. Tudo que realmente existia era o Um, ser ideal, eterno, perfeito e imutável (idéia que, curiosamente, lembra um pouco as do físico Stephen Hawking). Zenão, como Pitágoras, foi um revolucionário fracassado, e acabou torturado e executado pelo tirano de Eléia.



E a síntese na teoria original dos quatro elementos

Mais interessante para a história dos elementos, entretanto, foi Empédocles de Agrigento (cidade grega da Sicília - 490 a 435 a.C.). Apesar de ser originalmente um pitagórico (foi acusado por estes de trair os segredos da escola), criou e divulgou uma filosofia que pode ser considerada mais uma síntese do pensamento jônico com o sul-italiano e a primeira forma de pluralismo (e, apesar disso, uma forma de holismo) do que uma mera vulgarização do pitagorismo.

Para ele a natureza era a síntese de quatro elementos ou deuses: água (Néstis), ar (Hera), fogo (Zeus) e terra (Hades). Sua imagem da natureza não estava numa unidade de essência, biológica ou espiritual: era a própria pluralidade dos elementos que constituíam a natureza - o todo - relacionando-se por duas forças que também eram deusas: amizade (philia - igual a Afrodite, deusa do amor) e o ódio (neikos - Éris, a deusa da discórdia). A amizade exogâmica e mestiça, tende a unir os contrários, enquanto o ódio, endogâmico e racista (no limite, incestuoso), tende a separá-los e unir os semelhantes. Apesar da unidade da natureza ser, por assim dizer, fortuita, é bastante real: Empédocles era vegetariano por considerar que comer carne era comer a si mesmo, pois o ser é um.

Essa filosofia tem em si um pouco de cada uma das precedentes (especialmente a Heráclito, pela luta/amor entre os elementos), como é fácil perceber, mas além disso deve também à mitologia. Ele expressava sua filosofia em versos, como os antigos poetas da mitologia (e também como Parmênides) e ao contrário dos filósofos jônicos materialistas. Igualava os elementos a deuses e incluía entre eles a terra, reparando a injustiça cometida pelos jônicos. Desprezada pelos filósofos jônicos como demasiado grosseira, era, na mitologia grega de Hesíodo, a origem de toda a natureza, na forma da deusa Gaia.

Se o amor prevalecesse totalmente, o universo se tornaria um Todo indiferenciado como o Um dos eleatas; se o ódio fosse vitorioso, ele se decomporia em partes inconciliáveis em luta eterna, como o Fogo de Heráclito. O equilíbrio entre as duas grandes forças é que mantém o mundo como ele é. Esta concepção tem analogias na moderna teoria do caos: segundo esta, a vida precisa se manter no ponto de equilíbrio entre a ordem e o caos. A ordem total levaria à rigidez total e cristalina da máquina - o resultado final do amor de Empédocles; o caos total resultaria na massa informe de um gás, onde as moléculas se chocam desordenadamente - o ódio de Empédocles. Poderíamos também comparar estas forças com os conceitos freudianos de eros e thanatos.

A concepção de quatro elementos seria reapropriada pelo idealismo no Timeu de Platão, segundo o qual a matéria só ganha algum grau de ser ao lhe ser imposta uma forma (idéia). E como há apenas cinco sólidos perfeitos (isto é, figuras geométricas tridimensionais com todas as faces iguais), poderia haver, no máximo, cinco elementos: ao tetraedro (4 faces), forma mais simples e "pura", corresponde o fogo; ao octaedro (8 faces), o ar; ao icosaedro (20 faces), a água; ao cubo (6 faces), o mais difícil de mover, a terra. Sobrou o dodecaedro (12 faces), associado ao "Todo".

Segundo Platão, como o tetraedro, o octaedro e o icosaedro têm todos faces triangulares, as partículas de fogo podem transformar-se em água e ar e vice-versa por recombinação de faces (mas a terra, de faces quadradas, e o quinto elemento, de faces pentagonais, teriam que ser imunes a transformações em outros elementos). Os números dos elementos são 1 (fogo), 2 (ar), 3 (água) e 4 (terra).

Se, para Empédocles eles pareciam iguais em valor, para Platão e sucessores pareceram formar uma escada que vai do instinto grosseiro ao espírito puro. Aristóteles voltou a uma concepção mais "horizontal" dos primeiros quatro elementos, mas acrescentou a eles um quinto mais elevado: o éter, constituinte dos corpos celestes, substituiu o "Todo" do Timeu - mas geralmente ignorado por ser irrelevante para médicos e alquimistas, a não ser como símbolo do espírito. Foi essa a concepção que predominou no Ocidente até Paracelso.



Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.

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