sábado, 7 de junho de 2008

Na origem, os elementos


Nos manuais e cursos de Química, é comum introduzir o estudo dos elementos com a história da concepção antiga e medieval dos quatro elementos, a qual a concepção introduzida na Idade Moderna por Antoine Lavoisier teria substituído e sucedido, sendo depois aperfeiçoada e expandida por John Dalton e, principalmente, Dimitri Mendeleev, o criador da Tabela Periódica.

Mas é uma visão demasiado anacrônica, demasiado enviesada pelo olhar moderno que faz da teoria antiga dos elementos uma precursora da química moderna. Para os antigos, ela era mais do que isso: era uma forma de classificar, hierarquizar e organizar toda a realidade, física, biológica, psicológica e espiritual.

Nas concepções antigas, o número de elementos é pequeno e fechado - não se cogita descobrir "novos". Freqüentemente quatro ou cinco. Por quê? Por ser uma maneira natural de organizar o espaço, comum à maioria dos povos - leste, oeste, norte, sul (e, às vezes, o centro ou o alto) - que sugere, por analogia, uma maneira paralela de organizar a compreensão da realidade.

O norte é associado a frio e o sul a calor porque, do ponto de vista do Hemisfério Norte, o sol do meio-dia está ao sul e o sol nunca está ao norte (no nosso hemisfério, naturalmente, é o contrário). Daí é natural associar o sul a fogo e o norte a seu oposto, usualmente a água.

O leste é onde o sol nasce e por isso está relacionado a nascimento, juventude e vida, enquanto o oeste está relacionado a ocaso, decadência e morte.

Para um povo que enterra seus mortos, é natural relacionar o oeste à terra e leste ao ar, símbolo de "espírito", respiração e vida.

Os chineses seguiram uma lógica só ligeiramente diferente: o leste é associado ao vento ou à madeira - vegetação em crescimento, outro símbolo de vida - e oeste ao metal sem vida, das armas que podem matar.

O centro é o ponto de referência e equilíbrio, que pode ou não ser tomado como um elemento e ponto cardeal. No caso dos chineses, é a terra, que para esse povo não se associa à morte e sim ao cultivo e à vida civilizada. No dos gregos é o éter, o ponto de vista dos deuses imortais alheios à mudança.

Outra maneira tradicional de pensar os elementos é de acordo com um eixo vertical - alto, médio e baixo, pensado em relação ao corpo humano. Geralmente, o alto é associado a razão ou espírito (cabeça), o médio a movimento ou energia (coração/pulmões) e o baixo a inércia e matéria (barriga/intestinos).

Uma versão desse esquema é indiana, as chamadas gunas do ayurveda, medicina tradicional hinduísta: sattva (branco, inteligência, virtude, bondade), rajas (vermelho, energia, turbulência) e tamas (negro, inércia, inconsciência).

A partir de 1520, Paracelso (seguido pelos alquimistas do início da Idade Moderna) concebeu uma tripartição muito semelhante: enxofre (princípio inflamável, alma), mercúrio (espírito), e sal (corpo, matéria). Foi a que prevaleceu imediatamente antes de se impor a concepção moderna de Lavoisier.

Se eliminarmos o estrato médio e ficarmos só com o alto-baixo temos o par Yang-Yin da cosmologia chinesa (Céu-Terra), no qual o homem também tem o papel de ponto médio.

É interessante ver como todos esses esquemas serviram ou servem como princípio de organização da medicina e da dietética. Os gregos e médicos hipocráticos medievais classificavam os alimentos de acordo com sua proporção dos quatro elementos que supostamente continham. Assim como os chineses em geral favoreciam um alto conteúdo de "yang" e os indianos de "sattva", os hipocráticos julgavam mais saudável, na maioria dos casos, o "fogo" - razão pela qual as especiarias picantes foram tão demandadas.

No início da Idade Moderna, a concepção de dieta ideal passou a ser pensada pelo esquema de Paracelso, favorecendo, por exemplo, o consumo de destilados ou "espíritos" assimilados ao princípio do "mercúrio" e de molhos à base de gorduras, assimiladas ao "enxofre", necessário para unir a matéria. Os iogues e seguidores do ayurveda aplicam os gunas para a mesma finalidade. A macrobiótica e a acupuntura seguem o esquema chinês.

A poesia dos elementos

Os mais antigos mitos gregos recorrem a uma concepção similar. Começam com a atividade de três elementos: Caos (o abismo de trevas cósmico, que se divide em celeste - Noite e subterrâneo - Érebo), a Terra e o Tártaro nevoento, habitação sombria das sombras dos mortos. Eles ou elas geram sozinhos seres poderosos e gigantescos, até que intervém o quarto elemento, Amor (Eros), que impõe uma nova forma de reprodução, dando origem a seres mais belos, proporcionados e "humanos", dos quais os primeiros são os Titãs, artífices da primeira humanidade (a da Idade de Ouro). Um deles, Cronos, castrou o pai e tomou o poder, até ser deposto pelo seu filho Zeus. Os genitais castrados do Céu originaram Afrodite, deusa do Amor, ao passo que a Noite gerou sozinha (além de muitos outros seres punitivos e terríveis) Éris, deusa da discórdia e as Moiras, deusas do destino.

Em termos modernos, poderíamos traduzir isto assim: os princípios fundamentais são o espaço vazio (Caos), a vida (Gaia), a morte (Tártaro) e a beleza (Eros), entendida como ordem e proporção (Cosmos). Os três primeiros são capazes de gerar por si, mas apenas quando a beleza do parceiro doma seus espíritos e vontade é que passam a gerar, através do coito, seres realmente belos, porque originados dessa beleza e não da vontade bruta. Só com esses seres surge verdadeiramente o amor, a luta, a evolução e o Cosmos que conhecemos.

Ao se iniciarem no pensamento racional, os gregos ainda mantinham esquemas de pensamento similares. Segundo Jean-Pierre Vernant (Mito e Pensamento entre os Gregos), "o pensamento racional tem um registro civil: conhece-se a sua data e o seu lugar de nascimento". A criança nasceu em Mileto (cidade da Jônia, extremo oriental do mundo grego) por volta de 585 a.C., e suas primeiras palavras foram: "tudo é água".

É verdade que a estrutura de pensamento que serve de modelo às primeiras investigações filosóficas não era inteiramente nova. Segundo F.M. Cornford (Principium Sapientiae: the origins of greek phiosophical thought), o mesmo esquema se encontra na mitologia grega e na filosofia jônica:

1. no começo há um estado de indistinção onde nada aparece;

2. desta unidade primordial emergem, por segregação, pares de opostos, quente e frio, seco e úmido, que vão diferenciar no espaço quatro províncias: o céu de fogo, o ar frio, a terra seca, o mar úmido;

3. os opostos unem-se e interferem, cada um triunfando por sua vez sobre os outros, segundo um ciclo indefinidamente renovado, nos fenômenos meteorológicos, na sucessão das estações, no nascimento e na morte de tudo o que vive, plantas, animais e homens.

A novidade não estaria na estrutura da resposta, que já se encontrava nos mitos contados por Hesíodo na Teogonia (e antes, ainda, em mitos egípcios e mesopotâmicos) e sim em procurar explicar a dinâmica da natureza não através de deuses com personalidades complexas, arbitrárias e misteriosas, mas sim através de conceitos com propriedades tão simples quanto possíveis: conceitos elementares. Em vez de explicar o que já é complexo e misterioso através de algo mais misterioso ainda, acessível apenas aos privilegiados que tiveram acesso à revelação divina (de Javé ou das Musas), procurou-se explicar o misterioso em termos que, em princípio, qualquer mortal poderia compreender, discutir e criticar racionalmente.



Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.

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